




Fui almoçar com o Frederico e a minha mana Teresa ao restaurante da Assembleia da Republica, que dá para o jardim lateral, um espaço digno do Palácio de S.Bento, com porcelanas e talheres com o AR (Assembleia da Republica) em letras desenhadas gravadas, e onde só podem entrar convidados. Depois de um maravilhoso almoço, acedemos ao palácio pelo interior e percorremos corredores, escadarias, salas, salões, claustros, jardins e as memórias vieram até mim através de cada passo que dava, de cada cheiro que sentia, de cada recanto que via. Desde que me lembro de existir que o meu pai, o melhor Pai do Mundo e das melhores pessoas que já existiram (não sou eu que digo...toda a gente sabe), fazia parte daquelas pedras, daquelas estátuas, daquelas pinturas, daqueles livros...o meu pai partilhava a sua vida entre a família, a minha mãe, seu amor, nós os oito filhos e a nossa casa no Restelo e o Palácio de S.Bento. Quando eu era mais pequena pensava que o meu pai era um rei e quando fui crescendo percebi que ele era realmente um rei. O meu pai era admiravel, inteligente, sensivel, sonhador, com uma enorme visão de futuro, visivelmente descendente dos bravos descobridores e navegadores portugueses e foi por isso que sempre esteve à frente da Assembleia da Republica, independentemente do regime politico e do governo. A hora habitual de chegada a casa era sempre depois das 21h (21h 21h30), hora a que jantavamos e ainda tinha tempo e disposição para nós todos. Nunca se deitava antes da 1h ou 2h da manhã ou mais tarde e, depois do serão em família, depois de nos deitarmos, ainda ficava no escritório onde dava uma leitura pelos jornais diários e concluia trabalho que trazia com ele todos os dias apesar dos "protestos" justificados da minha mãe.
Estivemos no Plenário e estive no lugar do meu pai, o lugar que foi do meu pai dia após dia, durante anos e anos e anos. Passei a mão ao de leve na madeira da mesa numa caricia para ele.
Quantas vezes eu percorri aqueles corredores imensos para ir ter com o meu pai, com 13, 14, 15 anos, depois das aulas no Instituto Britânico, à espera de uma "boleia" para casa...quantas vezes fiquei horas à espera enfiada num sofá no seu gabinete, enquanto docemente me dizia...
"Só mais um bocadinho..."
Olhei para o fundo do corredor, olhei para as mesas à porta dos gabinetes com os respectivos funcionários fardados e acreditei que se entrasse no imenso gabinete do meu pai o iria encontrar sentado à secretária e que me iria receber com aquele seu sorriso...
...por momentos acreditei.








































